quinta-feira, 28 de agosto de 2025

CPAD : A Igreja em Jerusalém — Lição 9: Uma Igreja que se arrisca

 


TEXTO ÁUREO

Mas ele, estando cheio do Espírito Santo e fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus.

(At 7.55).

VERDADE PRÁTICA

A igreja foi capacitada por Deus para enfrentar um mundo que é hostil à sua fé e valores.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Atos 6.8-15; 7.54-60.

Atos 6

8 — E Estêvão, cheio de fé e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo.

9 — E levantaram-se alguns que eram da sinagoga chamada dos Libertos, e dos cireneus, e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilícia e da Ásia, e disputavam com Estêvão.

10 — E não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava.

11 — Então, subornaram uns homens para que dissessem: Ouvimos-lhe proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus.

12 — E excitaram o povo, os anciãos e os escribas; e, investindo com ele, o arrebataram e o levaram ao conselho.

13 — Apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras blasfemas contra este santo lugar e a lei;

14 — porque nós lhe ouvimos dizer que esse Jesus Nazareno há de destruir este lugar e mudar os costumes que Moisés nos deu.

15 — Então, todos os que estavam assentados no conselho, fixando os olhos nele, viram o seu rosto como o rosto de um anjo.

 

Atos 7

54 — E, ouvindo eles isto, enfureciam-se em seu coração e rangiam os dentes contra ele.

55 — Mas ele, estando cheio do Espírito Santo e fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus,

56 — e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, que está em pé à mão direita de Deus.

57 — Mas eles gritaram com grande voz, taparam os ouvidos e arremeteram unânimes contra ele.

58 — E, expulsando-o da cidade, o apedrejavam. E as testemunhas depuseram as suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo.

59 — E apedrejaram a Estêvão, que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.

60 — E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu.

PLANO DE AULA

1. INTRODUÇÃO

Nesta lição, estudaremos a vida e o testemunho de Estêvão, um homem cheio de fé, de sabedoria e do Espírito Santo. Ele enfrentou oposição, falsas acusações e, por fim, o martírio, mas permaneceu firme na fé e na defesa do Evangelho. Sua história nos ensina que a Igreja, ao cumprir sua missão, inevitavelmente enfrentará perseguições e desafios. No entanto, assim como Estêvão contemplou a glória de Deus mesmo em meio à adversidade, somos chamados a confiar plenamente no Senhor e a perseverar até o fim. Que esta lição fortaleça nossa fé e nos inspire a ser testemunhas fiéis de Cristo, independentemente das circunstâncias.

 

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Elencar os desafios enfrentados por Estêvão ao ter sua fé questionada e como isso reflete na experiência da Igreja hoje; II) Mostrar a defesa da fé feita por Estêvão e sua aplicação para os cristãos na atualidade; III) Refletir sobre o martírio de Estêvão e a importância da perseverança e fidelidade à missão da Igreja.

B) Motivação: Ao longo da história, a Igreja sempre enfrentou oposição, mas, assim como Estêvão, somos chamados a permanecer firmes na fé. A verdade do Evangelho será contestada, e nossa responsabilidade é conhecer, defender e viver essa fé com coragem. Diante das dificuldades, devemos lembrar de que nosso compromisso com Cristo pode exigir sacrifícios, mas a fidelidade a Ele nos garante a vitória eterna. Que esta lição nos motive a confiar no Senhor e testemunhar o Evangelho com ousadia.

C) Sugestão de Método: Para reforçar o tópico 1, “Estêvão e a Igreja que tem sua fé contestada”, você pode utilizar o método de reflexão dirigida. Inicie apresentando um cenário em que a fé cristã é questionada atualmente, como nas redes sociais, no ambiente acadêmico ou no trabalho. Peça que os alunos discutam desafios que enfrentam ao defender sua fé. Em seguida, oriente-os a relacionar essas experiências com a história de Estêvão, destacando sua postura diante da oposição. Após a discussão e reflexão, escolha alguns alunos para compartilhar suas conclusões e, logo depois, você reforçará que, assim como Estêvão, devemos responder com sabedoria, graça e firmeza na Palavra de Deus.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: A história de Estêvão nos ensina que a fé genuína permanece firme, mesmo diante da oposição. Assim como ele, devemos confiar em Deus, defender o Evangelho com coragem e viver de modo que Cristo seja visto em nós. Sua vida e morte nos mostram que o verdadeiro testemunho cristão vai além das palavras. Mesmo em meio ao sofrimento, Estêvão refletiu a glória de Deus e perdoou seus perseguidores com graça, verdade e ousadia.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 102, p.40, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “Estêvão”, localizado depois do segundo tópico, aprofunda um pouco a respeito das características de Estêvão; 2) No final do terceiro tópico, o texto “Honrando a Deus” analisa a forma que podemos ser fiéis ao Senhor sem duvidar.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Na lição de hoje vamos conhecer um pouco mais sobre a vida de Estêvão, um dos sete escolhidos para a diaconia (At 6.1-7). Quando lemos esse texto do Livro de Atos, logo percebemos que estamos diante de uma pessoa extraordinária — de grande fé, cheio do Espírito Santo e de sabedoria. Um autêntico cristão destemido! Estêvão é um modelo para todo cristão e, sem dúvida, serve de modelo para a Igreja do Senhor. Observamos que a perseguição a Estêvão e seu consequente martírio marcam um momento decisivo na história da igreja cristã — quando a igreja sai para fora dos muros de Jerusalém para alcançar o mundo. Estava tendo, portanto, cumprimento das palavras de Jesus de que a Igreja seria testemunha tanto em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra. Atos 8.1 marca o início daquilo que foi anunciado em Atos 1.8.

Palavra-Chave:

MARTÍRIO

AUXÍLIO VIDA CRISTÃ

“ESTÊVÃO, além de ser um bom administrador, foi também um poderoso orador. Quando confrontado no Templo por vários grupos antagônicos ao Cristianismo, usou uma lógica convincente para refutá-los. Isto está claro na defesa da fé que ele fez diante do Sinédrio. Estêvão apresentou um resumo da história dos judeus e fez poderosas aplicações das Escrituras, o que atormentou seus ouvintes. Durante seu discurso, ele provavelmente percebeu que estava redigindo sua sentença de morte. Os membros do Sinédrio não podiam suportar que suas motivações ‘malignas’ fossem expostas. Apedrejaram Estêvão até à morte enquanto ele orava pedindo que o Senhor os perdoasse. As palavras finais do discípulo demonstram o quanto se tornou parecido com Jesus em pouco tempo. A morte de Estêvão causou um duradouro impacto sobre o jovem Saulo de Tarso, que deixou de ser um violento perseguidor dos cristãos para tornar-se um dos maiores defensores e pregadores do evangelho que a Igreja já conheceu.” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p.1490).

AUXÍLIO VIDA CRISTÃ

HONRANDO A DEUS

 “Estêvão viu a glória de Deus e Jesus, o Messias, à direita do Pai. As palavras do discípulo foram semelhantes às de Jesus diante do Sinédrio (Mt 26.64; Mc 14.62; Lc 22.69). A visão de Estêvão apoiava a reivindicação de Jesus; ela irritou os líderes judeus que condenaram Jesus à morte por blasfêmia. Por não tolerarem as palavras de Estêvão, mataram-no. Talvez as pessoas não nos matem por testemunharmos a respeito de Cristo, mas podem deixar claro que não desejam ouvir a verdade e tentar nos calar. Continue honrando a Deus por meio de sua conduta e de suas palavras; embora muitos possam rebelar-se contra você e sua mensagem, alguns seguirão a Cristo. Lembre-se de que a morte de Estêvão causou um profundo impacto na vida de Paulo, que mais tarde se tornou o maior missionário cristão. Mesmo aqueles que se opõem a você agora, podem mais tarde se voltar para Cristo.” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p.1492).

 SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

 UMA IGREJA QUE SE ARRISCA

  Amigo(a) professor(a), a paz do Senhor. A lição desta semana pretende ensinar o que torna uma igreja destemida e disposta a sacrificar-se em favor da causa do Reino de Deus. Estevão é apresentado na lição como um exemplo de cristão sólido na fé, fundamentado nas Escrituras Sagradas e que enfrentou o ódio dos perseguidores judeus helenistas. Mesmo diante das ameaças, assim como do ultraje sofrido pelas mãos de seus algozes, ele não sucumbiu na fé, mas foi fiel até à morte (At 6.8 — 7.60). O exemplo de Estevão nos ensina muitas lições e nos encoraja a perseverar na fé, mesmo sob incessantes ataques. Uma lição importante se destaca na circunstância em que Estevão se encontrava. Ele soube manter uma postura apologética, isto é, de defesa da fé cristã do início até o fim. Isso se deve em razão do seu profícuo conhecimento sobre o que professava, bem como de sua disposição para responder aos desafios decorrentes de ser um seguidor de Jesus.

  A igreja de Cristo na atualidade deve seguir o modelo de defesa da fé observado em Estevão. Os crentes devem conhecer profundamente a fé que professam. A dificuldade que muitas igrejas têm em relação à defesa da fé se deve ao fato de que muitos irmãos não são frequentadores assíduos da Escola Dominical. Jesus afirmou que as Sagradas Escrituras deveriam ser examinadas a fim de conhecermos os fundamentos da fé que nos mostram o trajeto à vida eterna (Jo 5.39). Portanto, conhecer as Escrituras é primordial para que o crente não seja levado por qualquer vento de doutrina (Ef 4.14,15). Outro aspecto importante é a disposição para defesa da fé. Se o conhecimento bíblico é indispensável, a prontidão por defender o que se acredita, quando se é questionado sobre a razão da fé, requer o preparo espiritual e intelectual.

  Na obra Razões para crer, editada pela CPAD, os autores Norman L. Geisler e Chad V. Meister discorrem que “a Bíblia diz que devemos fazer o que for preciso para estarmos preparados para dar uma resposta clara e abalizada. Primeira Pedro 3.15 diz: ‘Estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós’. Neste versículo, a palavra grega original traduzida por ‘responder’ é apologia, que significa ‘um discurso de defesa’. É de onde vem a palavra apologética, que é uma defesa explicada e interpretada da nossa fé” (2013, p.16). Devemos estar preparados para defender a doutrina bíblica pentecostal, afirmando e reafirmando a atualidade do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais. As obras Bíblia de Estudo PentecostalDeclaração de Fé das Assembleias de Deus e Teologia Sistemática de Stanley M. Horton, por exemplo, oferecem bastante apoio nesse sentido.

CONCLUSÃO

Estêvão, um dos sete escolhidos para o trabalho social da primeira igreja, representa o modelo de uma igreja verdadeiramente bíblica. Qualificado, cheio de fé e do Espírito Santo, não teme se posicionar diante de um mundo e de uma cultura contrários. Não teme o sofrimento e nem mesmo a morte na defesa daquilo que acredita e prega. É o modelo de uma igreja, que em vez de ficar no seu conforto, vai até as últimas consequências, arriscando-se pelo seu Senhor.

    CPAD : A Igreja em Jerusalém — Doutrina, Comunhão e Fé: a base para o crescimento da Igreja em meio às perseguições

Comentarista: José Gonçalves

Lição 9: Uma Igreja que se arrisca

 

 

T

odos nós gostamos de ler sobre a vida de homens e mulheres que, de alguma forma, impactaram as suas gerações com a sua vida e testemunhos. Temos na História da Igreja muitos exemplos que são inspiradores. Eles certamente nos emocionam, impactam e também nos desafiam. Lembro-me de como o livro Heróis da Fé, escrito pelo missionário pentecostal Orlando Boyer, teve impacto no início de minha fé.1 Ao ler, por exemplo, a história de D. L. Moody, não pude conter as lágrimas.1 2 Somam-se a eles os nomes de mulheres também extraordinárias. Quem não se emociona com o testemunho de Susanna Wesley, mãe do gigante e pai do metodismo, John Wesley? O que dizer de Betsy Moody, sobre quem o seu notável filho, D. L. Moody, disse publicamente ter feito por ele “mais do que qualquer outro ser na Terra”?

   No contexto bíblico, os exemplos multiplicam-se. Quem não se emociona, por exemplo, com a história de José do Egito? Lembro- -me dos longínquos anos 1980 quando meu velho pai, Antônio Gonçalves da Costa, ainda vivia. Bem no início de minha fé, eu abria a Bíblia e lia para ele ouvir a história de José do Egito. Mesmo ainda não tendo confessado a Cristo como Senhor da sua vida, eu via as lágrimas rolando pela sua face. Com a voz carregada de emoção, meu pai dizia: “Esse aí era um homem de verdade”. Não muito tempo depois disso, meu pai confessou a Cristo como Senhor da sua vida, exemplo que posteriormente foi seguido por minha mãe, de saudosa memória, Geni Fausto Gomes. Esse é o resultado do testemunho de homens de fé.

  Estêvão, um Homem de Deus

  E fácil constatar que existem dezenas de personagens na Bíblia que inspiram nossa fé tanto no Antigo como no Novo Testamento.3 No Novo Testamento, Estêvão, um dos sete diáconos da Igreja Primitiva, é um deles.4 5 A história de- Estêvão, de fato, é impactante e fascinante ao mesmo tempo.3 Lucas, o escritor de Atos dos Após tolos, reservou uma boa parte do seu livro para tratar sobre ele. O historiador Justo González6 teve a curiosidade de verificar que 5% de todo o conteúdo de Atos dos Apóstolos é reservado para a história de Estêvão. A sua importância e influência, portanto, não podem ser diminuídas. O seu exemplo de fé, ousadia e coragem, sem sombra de dúvida, tipifica a igreja que se arrisca no seu testemunho de Cristo.

   A Falsa Narrativa

   Um fato que logo se destaca na narrativa lucana sobre Estêvão é que ele não se limitou a cuidar da parte social da igreja. O seu testemunho também se estendeu para a esfera evangelística, esta com muito mais notoriedade e visibilidade. A Bíblia diz que “Estêvão, cheio de fé e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo” (At 6.8). Foi essa capacidade de demonstrar o evangelho tanto em palavras como em obras, no poder do Espírito Santo, que causou grande impacto na comunidade judaica de Jerusalém. Motivados pela inveja, os adversários de Estêvão passaram a propagar muitas coisas negativas sobre o seu ousado testemunho. Isso, contudo, não o intimidou, pois “não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava” (At 6.10). Não podendo calar a Estêvão, procuraram logo uma narrativa falsa para minar o seu testemunho e credibilidade. Assim, acusaram-no de “proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus” (At 6.11).

   De forma ardilosa, criaram uma narrativa em que Estêvão era posto como um adversário de Moisés. Justo González observa que essa é a primeira vez que esses líderes hostis à igreja conseguem trazer o povo para o lado dele. Nos levantes anteriores, não eram bem-sucedidos nos seus intentos porque a igreja tinha “a simpatia de todo o povo” (At 2.47, NAA). A falsa narrativa, entretanto, conseguiu influenciar o povo e colocá-lo contra Estêvão. Mesmo o acusando falsamente, o povo tinha de reconhecer que ele era um homem justo, puro e santo: “Olhando para ele, todos os que estavam sentados no Sinédrio viram que o seu rosto parecia o rosto de um anjo” (At 6.15, NVT).

   A Igreja vai ter sempre de enfrentar as falsas narrativas que engenhosamente são criadas contra ela. Não há como escapar disso. A Igreja está em oposição ao mundo e ao Diabo. À medida que avança, a Igreja torna-se uma ameaça ao reino do mal. As falsas narrativas são criadas para tentar minar o testemunho da Igreja. Karl Marx (1818-1883), por exemplo, via a religião como uma droga usada para alienar as pessoas da realidade; por outro lado, Friedrich Nietzsche (1844-1900) propagou que Deus estava “morto” não no sentido de que deixara de existir, mas que não fazia mais sentido acreditar nEle. Da mesma forma, Auguste Comte (1798-1857) propagou que as religiões estavam contaminadas de superstições e irracionalidades, sendo, portanto, necessário substituí-las por uma nova forma de crer e pensar — o positivismo lógico. Assim, o positivismo de Comte excluía qualquer manifestação sobrenatural, aceitando apenas o que pudesse ser provado cientificamente mediante dados observáveis. As narrativas criadas por Marx, Nietzsche e Contiveram enorme influência no mundo ocidental. Na verdade, as narrativas criadas por esses ideólogos moldaram a forma de crer, pensar e agir da cultura moderna e pós-moderna. Qual narrativa está em voga hoje ou está sendo criada para atacar a Igreja?

   A Mensagem

   Estêvão é considerado o primeiro apologista da igreja. Quando é chamado pelo Sinédrio para dar explicações das acusações que lhe foram feitas, Estêvão faz uma defesa memorável da fé cristã. E importante observarmos que Estêvão em nenhum momento demonstra estar intimidado pelas falsas acusações. A forma como conduz o seu discurso demonstra que não teme a perseguição e o sofrimento. Sobre isso, Gardner observa que:

   A resposta de Estêvão não representava uma tentativa de se livrar da perseguição ou do sofrimento; pelo contrário, foi uma magnífica confissão de sua fé em Cristo contra o pano de fundo do tratamento dispensado por Deus ao povo da Aliança através da história. O sermão realmente nos oferece uma “teologia bíblica” — um exame do Antigo Testamento à luz do advento de Cristo. Mostra um triste quadro de constantes escorregões por parte do povo de Deus e aponta a rejeição deles ao Messias prometido, como o trágico clímax de uma longa história de apostasia e desobediência (7.2-53).8

  Como já foi observado neste texto, o sermão de Estêvão é um dos mais longos da Bíblia. A sua exposição demonstra que Estêvão possuía um grande conhecimento da história e cultura do seu povo. Ele não apenas possuía um grande conhecimento teológico, como também sabia interpretar esses fatos à luz da profecia bíblica. Dessa forma, é possível observarmos claramente que a pregação de Estê vão pode ser dividida em três partes seguidas de uma conclusão. Na primeira parte, ele faz referência aos patriarcas (At 7.2-16); na segunda, a referência é a Moisés (At 7.17-42); e, na terceira, faz alusão ao Tabernáculo e ao Templo (At 7.44-50); na conclusão, Estêvão mostra Cristo, o Messias, como a convergência e cumprimento de todas as profecias bíblicas (At 7.51-60).

  Deus na História do seu Povo

  I. Os Patriarcas, Vivendo das Promessas de Deus

  “O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, estando na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e disse-lhe: Sai da tua terra e dentre a tua parmtela e dirige-te à terra que eu te mostrar” (At 7.2,3). Tudo começa com a chamada de Abraão, o grande patriarca hebreu. Deus chamou Abrão quando este estava em Ur dos caldeus, Mesopotâmia, antes de habitar em Harã. Saindo de Ur, Abrão foi habitar em Harã e posteriormente se deslocou até Canaã. Deus, contudo, “não lhe deu nela herança, nem ainda o espaço de um pé; mas prometeu que lhe daria a posse dela e, depois dele, à sua descendência, não tendo ele filho” (At 7.5). O ponto central aqui é que o chamado estava relacionado com uma promessa, e não com uma herança.

  Grant Osborne destaca que:

  No entanto, Estêvão deixa claro que o chamado de Abraão não implicava em receber uma herança, mas uma promes sa. (7.5). Como sabemos do livro de Êxodo, inclusive seus descendentes não viram seus pés na terra prometida antes de Josué. A herança era deles, mas era preciso confiar na promessa de Deus ao longo de gerações. Abraão fora um nômade durante toda sua vida e não tinha literalmente uma terra sequer para chamar de lar, mas apenas uma vaga ideia de uma futura “herança” que muito tardiamente viraria de sua posse, a terra que lhes pertencería. O problema é que quando Abraão recebeu essa promessa de herança e progê- nie, ele ainda não tinha filhos, de modo que foi preciso ter uma fé dupla, em uma terra futura e em futuros descendentes (12.2; 15.2.6) para habitar a terra. O ponto de Estêvão reside no fato de que o chamado de Abraão não era centrado na posse da terra, mas na promessa de uma futura herança.9

   Fica em relevo, portanto, que o povo de Deus é peregrino na sua caminhada e precisa manter os olhos fixos na promessa de Deus. Na verdade, a carta aos Hebreus vai revelar que o tão esperado descanso do povo de Deus não veio nem mesmo com a entrada do povo na Terra Prometida por meio da liderança de Josué, ficando assim demonstrado que o verdadeiro descanso era uma promessa a ser cumprida em Jesus. Esse fato mostra que a Igreja, como o povo de Deus, também é peregrina na sua jornada.

   II. Moisés, de Líder Rejeitado

       a Legislador Aprovado

  “E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em suas palavras e obras [...] E ele cuidava que seus irmãos entenderíam que Deus lhes havia de dar a liberdade pela sua mão; mas eles não entenderam” (At 7.22,25). Estêvão faz uma síntese detalhada sobre a vida de Moisés, como sendo uma demonstração da soberania de Deus na história do seu povo. Na fala de Estêvão, fica claro que ele quer contrastar a forma como o seu antigo povo tratava com aqueles a quem Deus enviava e a forma como os líderes religiosos dos seus dias agiam. As duas eram marcadas pela rejeição aos mensageiros enviados por Deus. No passado, rejeitaram a Moisés; agora rejeitavam a Jesus.

  Grant Osborne destaca que:

  Israel é decididamente ingrato pelo que Moisés fizera. Ele pensava que seus irmãos entenderíam que Deus queria salvá-los por meio dele; eles, porém, não entenderam (7.25). Esse havia sido seu propósito, e ele esperava que seus irmãos reconhecessem isso. O grego tem “Deus estava dando-lhes a salvação por meio de sua mão”, olhando para Moisés como o salvador de Israel. Mas ele era rejeitado pelos próprios israelitas que o consideravam mais egípcio do que um hebreu, e, portanto, um inimigo. A ignorância dos israelitas e suas resultantes faltas de consciência espiritual é uma das marcas da fala de Estêvão [...] O relato de Êxodo diz que ele fugiu com medo da vingança do faraó, mas Estêvão considera que ele fugira pela rejeição dos israelitas, seu próprio povo. O homem personifica o povo hebreu como um todo, ao rejeitar Deus e seu escolhido mensageiro Moisés. Há, ainda, uma conexão tipológica aqui, pois a rejeição do povo contra Moisés é cumprida na rejeição de Jesus e também de Estêvão e dos seguidores de Cristo.1

   Em seguida, Estêvão faz referência ao Tabernáculo feito por Moisés e ao Templo construído por Salomão (At 7.44-50).

  III.  O lugar do Tabernáculo e do Templo

  NA HISTÓRIA DA REDENÇÃO

  O Templo era um local sagrado para os judeus. O que ele simbolizava ia muito além do que era visto na sua estrutura física. Deus habitava ali. Era o local do devoto encontrá-lo. Ao dizer que Deus “não habita em templos feitos por mãos de homens” (At 7.48), Estêvão selou o seu destino.

  Justo González observa que:

  No versículo 44, o discurso toma um novo rumo, o qual levará ao martírio de Estêvão. Nele, ele começa a atacar o templo e sua religião. Tudo que Israel tinha no deserto era a tenda do testemunho, construída de acordo com as instruções dadas por Deus a Moisés. O que Davi pediu para construir (7.46) ainda não era um templo, mas uma “habitação” ou tabernáculo. Depois, chega o momento em que, de acordo com Estêvão, Israel perdeu o seu caminho: “porém foi Salomão que construiu a casa de Deus” (7.47). De acordo com Estêvão, o Deus de Israel é um Deus peregrino, sempre marchando adiante do povo, que não pode ficar circunscrito a um único lugar. Acima de tudo o mais, Estêvão está convencido de que Deus “não habita em templos feitos por mãos humanas”.11

   Estêvão chega à conclusão da sua pregação acusando os seus compatriotas de rebeldia e dureza de coração. Eles, assim como os seus antepassados, sempre resistiram ao Espírito Santo (At 7.51-53). A história, portanto, repetia-se: ‘A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente anunciaram a vinda do Justo [Jesus Cristo], do qual vós agora fostes traidores e homicidas” (At 7.52). Esse Jesus rejeitado era o Messias prometido!

   A pregação de Estêvão era por demais dura para ser ouvida. Eles “taparam os ouvidos” (At 7.57). Tapar os ouvidos era um gesto praticado por judeus que se consideravam piedosos para impedir que palavras de blasfêmias fossem ouvidas e entrassem nas suas mentes. Era preciso fazer Estêvão calar-se: “E, expulsando-o da cidade, o apedrejavam” (At 7.58). Mesmo sendo apedrejado, Estêvão não se calou: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7.59). Pelo seu Mestre e Senhor, Estêvão entregou a sua vida.

    Uma Igreja que se Arrisca | 117

   A Igreja em Jerusalém — Doutrina, Comunhão e Fé: a base para o crescimento da Igreja em meio às perseguições

 

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