TEXTO ÁUREO
“E era um o
coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do
que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.”
(At 4.32).
VERDADE PRÁTICA
O amor é o elo que mantém a unidade da igreja local.
Sem o amor, não existe relacionamento cristão saudável.
LEITURA
BÍBLICA EM CLASSE
Atos
4.32-37.
32
— E era um o coração e a alma da multidão dos
que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas
todas as coisas lhes eram comuns.
33
— E os apóstolos davam, com grande poder,
testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante
graça.
34
— Não havia, pois, entre eles necessitado
algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o
preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos.
35
— E repartia-se a cada um, segundo a
necessidade que cada um tinha.
36
— Então, José, cognominado, pelos apóstolos,
Barnabé (que, traduzido, é Filho da Consolação), levita, natural de Chipre,
37
— possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o
preço, e o depositou aos pés dos apóstolos.
PLANO DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
Nas páginas de Atos, a Igreja de Jerusalém floresce
como um testemunho vibrante do poder transformador do Evangelho. Nesta lição,
exploraremos o amor e a unidade que moldaram essa comunidade pioneira, desde o
Pentecostes até os desafios que testaram sua fé. O amor fraternal, a oração
incessante e a ousadia missionária se tornaram as marcas distintivas dessa
igreja, inspirando-nos a buscar um relacionamento mais profundo com Cristo e a
viver em comunhão uns com os outros. Que a jornada da Igreja de Jerusalém nos
motive a edificar igrejas locais que difundem o amor de Deus!
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição:
I)
Compreender como o amor se manifesta na comunhão cristã, promovendo a unidade e
o crescimento da igreja;
II)
Reconhecer a graça de Deus como a fonte do amor cristão; III) Incentivar a prática da solidariedade
cristã como expressão do amor.
B)
Motivação: Em meio à
complexidade do mundo moderno, onde o individualismo e a indiferença se
manifestam, a Igreja é chamada a ser um farol de esperança e amor. Ao
explorarmos a dinâmica da Igreja de Jerusalém, somos desafiados a refletir
sobre a essência da nossa comunhão. Que esta lição nos inspire a cultivar um
amor genuíno, a manifestar a graça divina em nossas ações e a praticar a
solidariedade, para que, assim como a igreja primitiva, possamos impactar nossa
sociedade com a mensagem transformadora do Evangelho.
C)
Sugestão de Método: Para
envolver os alunos desde o início, sugerimos que inicie a aula com uma
dinâmica. Solicite à classe para que imagine como seria viver em uma comunidade
onde todos compartilham seus bens e se dedicam à oração e ao estudo da Palavra.
Em seguida, convide pelo menos três alunos(as) a apresentar suas ideias,
destacando os desafios e benefícios dessa forma de vida. Essa atividade prática
ajudará os alunos a se conectarem com a realidade da Igreja de Jerusalém,
preparando-os para explorar as lições sobre amor, graça e solidariedade
presentes nos primeiros capítulos de Atos.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Que o exemplo da
Igreja de Jerusalém nos inspire a cultivar um amor genuíno e prático,
manifestando a graça de Deus em nossas ações diárias. Que a solidariedade e a
comunhão sejam marcas distintivas de nossa igreja local.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale
a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e
subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 102, p.38, você
encontrará um subsídio especial para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao
final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de
sua aula: 1) O texto “Propriedades São Vendidas e Distribuídas”, localizado
depois do segundo tópico, traz uma reflexão do equilíbrio entre a manifestação
de poder e sinais e a manifestação da generosidade cristã; 2) No final do
terceiro tópico, o texto “Consagração” traz uma reflexão a respeito da dinâmica
da solidariedade da igreja de Jerusalém.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Nesta lição, veremos como o amor de Deus se
manifesta numa igreja genuinamente cristã. Ele capacita a igreja a enxergar os
mais necessitados e a buscar caminhos para que suas carências sejam atendidas.
Esse amor, contudo, não é um mero sentimento humano. Em vez disso, ele é a
expressão máxima da graça de Deus que foi derramada abundantemente nos corações
daqueles que creem em Jesus. Somente através do amor de Deus o cristão aprende
a ser solidário e generoso com aqueles que precisam ter suas necessidades supridas.
Palavra-Chave:
AMOR
AUXÍLIO
BÍBLICO—TEOLÓGICO
“PROPRIEDADES
SÃO VENDIDAS E DISTRIBUÍDAS.
É significativo que a palavra ‘poder’ seja descrita como ‘grande’
(v.33), indicando a manifestação do poder de Deus em sinais e prodígios.
Milagres acompanham e confirmam a pregação dos apóstolos sobre a ressurreição
de Cristo, da mesma maneira que milagres acompanharam o ministério de Jesus. Ao mesmo tempo, Deus derrama ‘abundante
graça’ na comunidade de crentes (v.33), significando que são regados com ricas
bênçãos. A evidência da graça divina é vista na pregação e no alívio das
necessidades materiais dos pobres.
O ideal do
Antigo Testamento de que não devesse haver pobres entre os israelitas (Dt 15.4)
é percebido na Igreja pela generosidade dos membros com suas riquezas. À medida
que as necessidades surgem de tempo em tempo, aqueles que estão em melhor
situação vendem a propriedade e trazem a renda aos apóstolos. A expressão
‘depositavam aos pés dos apóstolos’ (v.35; At 5.2) indica que os apóstolos
estão sentados e, talvez, ensinando. A frase também revela autoridade, pois à
medida que o dinheiro lhes é entregue, eles servem de autoridades
administrativas para sua distribuição a cada pessoa de acordo com a
necessidade.” (Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento. Volume
1. Rio de Janeiro: CPAD, 2024, p.649).
AUXÍLIO BÍBLICO—TEOLÓGICO
“CONSAGRAÇÃO. [...] Como observamos em 2.44,45, a indicação
não é a de que toda propriedade privada de bens fosse abolida — como se faz em
algumas comunidades religiosas. Mas a sinceridade da consagração dos primeiros
cristãos era tal que se poderia dizer: Não havia, pois, entre eles necessitado
algum (34). Por quê? Porque quando surgisse uma necessidade, alguém venderia
algum bem e traria o dinheiro para solucionar a emergência. Isto é o que o
texto grego indica, pelo uso do imperfeito aqui, como em 2.44,45. O lembrete do
versículo 34 é, literalmente: ‘porque todos os que possuíam herdades ou casas,
vendendo-as [tempo presente — de tempos em tempos, conforme surgisse a
necessidade], traziam o preço do que fora vendido’. Isto não significa que
todos vendiam as suas propriedades ao mesmo tempo e colocavam o dinheiro em um
cofre comum. Ao contrário, cada crente conservava a sua propriedade como uma
garantia, a ser usada de qualquer modo necessário pela igreja. Esta é a
verdadeira administração cristã.” (Comentário Bíblico Beacon: João
e Atos. Volume 7. Rio de Janeiro: CPAD, 2024, p.236).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
UMA
IGREJA CHEIA DE AMOR
Caríssimo(a)
professor(a), a paz do Senhor. Nesta rica oportunidade, seus alunos aprenderão
sobre um tema primordial para a saúde espiritual da igreja: o amor cristão. O
amor é o elo que mantém a igreja do Senhor unida e disposta a cumprir sua
missão neste mundo. De modo geral, a igreja tem como missão cumprir o “Ide”
ordenado pelo Senhor Jesus. Esse Ide se traduz no trabalho de evangelização e
discipulado, mas também na consolidação dos crentes na fé em Cristo. Trata-se
de um processo de amadurecimento da vida cristã em que o amor é a pedra
fundamental. A Bíblia menciona o amor como “o vínculo da perfeição” (Cl 3.14).
O amor é a marca registrada da igreja de Cristo. Em
um mundo contaminado pelo pecado, repleto de maldades, mentiras, egoísmo e
violência, a humanidade procura um ambiente onde possa encontrar esperança,
acolhimento, verdade, paz e, sobretudo, o amor. Nesse sentido, a igreja de
Cristo representa a única porta capaz de oferecer essas virtudes. Para Thom S.
Rainer, em sua obra Igreja Acolhedora: Como Criar um Ministério de
Acolhimento, editada pela CPAD, “[...] quando as pessoas não crentes se
sentem bem-vindas, elas retornam. Quando retornam, elas têm mais oportunidades
de ouvir a pregação do Evangelho e desenvolver relacionamento com os crentes da
igreja. E, muitas vezes, esses relacionamentos são usados por Deus para levar
as pessoas ao seu Filho, Jesus Cristo. [...] Embora devamos, definitivamente,
alcançar as pessoas que estão além das paredes de nossas igrejas, imagine a
diferença que faríamos se fôssemos eficazes em receber as pessoas que nos
visitam. O primeiro grande passo no caminho para se tornar uma igreja
acolhedora é entender a importância incrível desse ministério” (2018, p.82).
Nesse
sentido, fica evidente que o acolhimento demonstrado pela igreja é reflexo do
nível de relacionamento experimentado entre os seus membros. Quando os irmãos
de uma igreja são movidos pelo amor de Deus de forma abundante em seus
corações, as relações interpessoais, por mais desafiadoras que sejam, são
conduzidas em perfeita harmonia. Para tanto, é preciso conscientizar os irmãos
acerca do propósito maior para o qual a igreja existe: ganhar almas para o
Reino de Deus. Quando o foco maior dos irmãos em Cristo está em cumprir o
“Ide”, ordenado por nosso Senhor (Mc 16.15), não haverá espaço para desavenças,
divisões, contendas ou animosidades que deterioraram as relações e tornam o
testemunho da igreja ineficaz. Que possamos permitir que o Espírito Santo
direcione cada coração de acordo com Seu propósito e, assim, seremos uma igreja
acolhedora e cheia do amor de Deus.
CONCLUSÃO
Chegamos à
conclusão de mais uma lição bíblica. Vimos como o amor de Deus, derramado nos
corações da Primeira Igreja, mobilizou os crentes a socorrer os mais
necessitados. Isso aconteceu de forma voluntária quando cada um, de acordo com
suas posses, se prontificava a dar do que lhe pertencia. Não há igreja cristã
verdadeira sem essa identificação com o outro. Ninguém pode fechar os olhos
diante da necessidade alheia e se autointitular de cristão. O verdadeiro amor
se realiza no atendimento da necessidade do próximo.
CPAD : A Igreja em Jerusalém — Doutrina, Comunhão e
Fé: a base para o crescimento da Igreja em meio às perseguições
Comentarista:
José Gonçalves
Lição 5: Uma Igreja cheia de amor
|
A |
s últimas décadas foram marcadas por profundas
transformações sociais. Essas mudanças são perceptíveis na forma como as
pessoas interagem e comportam-se no universo social. Grande parte dessas
transformações foi impulsionada pelo advento das mídias sociais, que passaram a
moldar a forma como se dão essas relações. A vida sai do universo off-line para
o on-line, do real para o virtual. É justamente no universo on-line c que se
configuram as novas teias de relacionamentos.
Os estudiosos do comportamento social
passaram a denominar essa nova configuração social de geração self. Ainda de
acordo com esses pesquisadores, essa geração caracteriza-se pelo isolamento,
isto é, pouco envolvimento civico; insegurança por conta das incertezas
econômicas; descrença onde o elemento religioso aparece em declínio;
indefinição marcada por novos posicionamentos sobre a sexualidade e a família;
virtualidade marcada pelo declínio da interação social no mundo real;
independência politica marcada pela aceitação do politicamente correto.
Essas caracteristicas apontadas no novo
tecido social estão presentes tanto na América do Norte como no Brasil. Na
verdade, está presente na cultura ocidental, onde o mundo europeu também
reflete essa realidade. Estamos, portanto, diante de uma nova realidade social.
Isso, evidentemente, envolve desafios, riscos e oportunidades. Não há dúvida de
que um dos principais desafios a ser enfrentado por essa nova realidade virtual
é a de mantê-la humana. À medida que mais se "virtualiza", mais
desumanizada a sociedade parece ficar. Isso parece meio paradoxal. O mundo real
perdeu espaço para o mundo virtual. Nesse aspecto, o mundo virtual parece
ter-se tornado o espaço preferido por aqueles que têm dificuldades em viver no
mundo real. Todos estão de alguma forma emaranhados nessa teía; os jovens,
contudo, são os principais habitantes desse novo mundo.
Nas palavras do sociólogo polonės, Zygmunt
Bauman
Para os
jovens, a principal atração do mundo virtual deriva da ausência de contradições
e objetivos contrastantes que infestam a vida off-line. O mundo on-line, ao
contrário de sua alternativa off-line, torna possivel pensar na infinita multiplicação
de contatos como algo plausivel e factivel. Isso acontece pelo enfraquecimento
dos laços em nítido contraste com o mundo off-line, orientado para a tentativa
constante de reforçar os laços, limitando muito o número de contatos e
aprofundando cada um deles.
Em outro livro de minha autoria, destaquei
que essa nova configuração social tem impacto direto na vida da comunidade e,
consequentemente, da igreja. Isso porque a Igreja é um organismo vivo, que se
constrói a partir das interações e relações humanas. Em palavras mais simples,
a Igreja é humana. Onde não existe o corpo a corpo, relacionamentos fisicos,
reais, não temos o que biblicamente é definido como sendo uma igreja. Na
verdade, as redes sociais, devido à impessoalidade que as caracteriza,
transformaram-se na nova igreja dessa geração virtual. Dessa forma, o
individualismo caracteriza-se como marca dessa geração. O virtual
"conecta-se", e o real "relaciona-se".
Esse fenômeno social que tem o individualismo
como a sua indelével marca faz parte da cultura pós-moderna. Esse novo paradigma
social também atende pelo nome de "sociedade em rede", "mundo
liquido" e "era do vazio". Trata-se de um modelo cultural que
privilegia as emoções e os sentimentos. Na pós-modernidade, as experiências
subjetivas e sensoriais passam a moldar praticamente tudo inclusive, em muitos
lugares, até mesmo a liturgia do culto. O sensorial sobrepõe-se ao racional.
Por tratar-se de um fenômeno de
desconstrução, os valores culturais no mundo pós-moderno são totalmente
relativizados. Conceitos como honra, dignidade, verdade e compromisso perdem-se
no vazio. Talvez isso explique tantas contradições e paradoxos presentes na
cultura em claros reflexos no comportamento evangélico brasileiro. A
preocupação não é mais com a ética, mas com a estética. O que vale é a imagem
que se vende, e não o caráter que se possui. Nessa nova configuração cultural,
a ordem dos valores aparece invertida, e o cristão precisa ter parâmetros bem
definidos para viver a sua vida na igreja e em comunidade. Isso porque, como
disse Bauman, "numa sociedade de consumidores ninguém consegue ser sujeito
sem primeiramente se tornar objeto". Como veremos, essa cultura de consumidores,
marcada pelo desejo de posse e um individualismo doentio, é diametralmente
oposta à vida da primeira comunidade cristă.
"E
era um o coração e a alma da mailtidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa
alguma do que possuia era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns"
(At 4.32). Esse texto lido através das
lentes da cultura líquida parece extremamente idealista. Algo totalmente fora
da realidade de hoje. Não há dúvida de que a narrativa lucana tem por objetivo
mostrar um modelo ideal de Igreja sem, contudo, negar a sua existência real.
Uma igreja ideal não é, portanto, aquela que não tem problemas nem encontra
desafios. Pelo contrário, uma igreja ideal possui problemas e desafios na sua
vida real. Entretanto, a forma como os enfrenta é que a faz diferente. Aqui
temos uma comunidade que viu diante de si problemas desafiadores, mas que soube
como enfrentá-los. Um dos desafios estava no fato de que aquela comunidade
composta de poucos membros agora era uma "multidão" de crentes. O
crescimento em ritmo acelerado trouxe novos problemas e, evidentemente, fez
surgir novas demandas.
Pablo Deiros destaca que:
A maneira em que Lucas apresenta a comunidade do Reino nesses versiculos
é interessante, pois ele descreve como ela foi formada. Lucas menciona uma
variedade de membros ativos e comprometidos dessa comunidade. Todos os crentes
(v. 32 Afirma-se "da multidão dos que creram" (v: 32) que eles eram
de um só sentir e pensar (lit., "um só coração e alma") e agia com
surpreendente solidariedade. Não é possível fazer uma distinção precisa entre
"coração" e "mente" aqui (v. Marcos 12.30), apenas se pode
dizer que a expressão indica uma atitude unánime de pensamento e afeto. Como já
foi dito, tal atitude, como grupo de crentes, era refletida em sua concepção da
realidade total, a tal ponto que "ninguém considerava unicamente sua coisa
alguma que possuisse, mas compartiIhavam tudo o que tinham" quanto ao uso
e exploração, não em termos de domínio ou titulo de propriedade. Era uma
comunidade de uso, não de dominio. Cada um era dono de seus berns, mas estes
estavam a serviço de todos, conforme a necessidade do momento. Era desse modo
que eles "compartiIhavam tudo o que tinham". É impossível entender
essa prática da comunidade de bens sem levar em conta que não foi fruto de
imposição, e sim de uma atitude de amor solidário de pessoas que de fato se
consideravam membros de um só corpo, o corpo de Cristo. A necessidade de um
membro era a necessidade de todos, e a bênção recebida por alguém devia ser
compartilhada com todos os que precisassem de ajuda. Essas ações também não
eram entendidas como obras meritórias, sacrificios de renúncia ou voto de
pobreza. Os primeiros cristãos não exaltavam a pobreza como virtude nem faziam
da generosidade imposta uma medida para forçar uma igualdade. Os fiéis
compartilhavam seus bens como expressão de ação de graças a Deus pelas bênçãos.
Deiros é bastante preciso quando diz que
aqueles cristãos formavam uma comunidade de "uso", e não de
"dominio". Isso significa dizer que eles partilhavam os seus bens à
medida que alguém tinha necessidade sem, contudo, serem obrigados a desfazer-se
deles. Não há aqui nenhuma indicação de que aqueles crentes deveriam renunciar
o seu direito à propriedade privada. Isso fica claro no caso de Maria, mãe de
Marcos, que possuía uma casa que não foi vendida, continuando na sua
propriedade e servindo como um local onde se faziam reuniões de oração (At
12.12).
Craig
Keener também destaca esse aspecto dessa questão:
Os verbos no imperfeito não sugerem a venda de todos os bens no ato da
conversão, mas crentes vendendo as suas propriedades quando a necessidade
surgia e contribuindo para um fundo comum supervisionado (aquela altura) pelos
apóstolos. À medida que a comunidade crescia e surgiam novas situações, os
apóstolos, em última análise, teriam que delegar a supervisão desses assuntos a
pessoas com mais tempo para isso (6.2-4). Além disso, a venda de bens poderia
desafiar "a atitude cultural greco-romana que racionalizava a retenção de
riqueza à guisa de a pessoa poder auferir beneficios futuros, especialmente
entre os seus amigos". A "venda" dos bens também pode evocar o
chamado de Jesus ao jovem rico (Lc 18.22), o qual constitui uma espécie de
modelo para todos os discipulos (12.33). Sobre a partilha de bens, vide a
análise aprofundada em Atos 2.44-45 (o uso de πιπράσκω em At 4.34 e 5.4 está
entre as características que remontam à passagem anterior); cf. também o
principio de Jesus em 20.35. A afir-mação de que não havia necessitados entre
eles (4.34) reflete a linguagem da comunidade biblica ideal em Deuteronomio
15.4. Deus prometeu que se os seus membros fossem obedientes, não haveria
pobreza entre eles (15.4-6), muito embora os pobres jamais deixariam a terra
(15.11), porque Deus proveria recursos suficientes aos que os tinham para que
eles os compartilhassem com aqueles que não os tinham (15.7-10). Destarte,
Lucas retrata a Igreja Primitiva não somente em termos gregos como a comunidade
ideal, mas também em termos biblicos tradicionais (adequados para o
remanescente justo de Israel; vide o comentário, especialmente, de At 1.26.
Após essa observação sobre a vida interna da
igreja, Lucas põe em destaque o testemunho dos apóstolos na pregação, enquanto
chama atenção para a manifestação da graça de Deus entre os crentes. Alguns
autores pensam que esse texto estaría deslocado, porém é mais correto entender
que Lucas está demonstrando que a dinâmica da comunidade só se tornou possível
devido à graça de Deus que entre ela é abundante.
"E
os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor
Jesus, e em todos eles havia abundante graça" (At 4.33), Lucas usa a
palavra grega dynamei, a mesma usada em Atos 1.8, para referir-se ao poder com
que os apóstolos davam testemunho da ressurreição de Jesus. A ideia por trás
desse texto é de uma grande demonstração do Espírito mediante milagres, sinais
e prodigios. A vida em harmonia na comunidade cristă somada às demonstrações
carismáticas eram reflexo da abundante graça na igreja.
"[...] os que postulan herdades ou casas, vendendo-as, traziam o
preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos" (At
4.34). Très coisas precisam ser destacadas aqui sobre a igreja de Jerusalém: (1)
a supervisão dos apóstolos, (2) a voluntariedade e (3) a solidariedade da
igreja. Como resposta à abundante graça de Deus dispensada para com a igreja,
os crentes logo perceberam que havia pessoas necessitadas no seu meio. A igreja
não era nivelada. Houve um movimento voluntário de partilha e doação para
atender os mais carentes que passou a ser concentrado nos apóstolos. Os
apóstolos tornaram-se o centro de distribuição e de supervisão. Posteriormente
(cf. At 6), vemos que eles dividiram ou responsabilizaram outros para que essa
tarefa fosse executada.
Algumas lições ficam claras nessa narrativa.
Em primeiro lugar, deve haver voluntariedade por parte dos crentes para
realizar o trabalho do Senhor isso tanto na esfera social como na missional.
Mesmo aqueles que recebem alguma ajuda financeira para executar alguma tarefa
não devem ter no dinheiro a sua motivação. Se isso acontecer, o seu trabalho
não será realizado a contento. Isso não quer dizer que alguém não possa ser
remunerado ou recompensa-do financeiramente pelo que faz. Significa que o
desejo de agradar a Deus deve ser a sua real motivação. Em segundo lugar, além
da voluntariedade, há a necessidade de possuir-se um espírito solidário. Uma
igreja que não é solidária na sua essência deixou de ser Igreja. Por natureza,
uma igreja necessita ser solidária. Em terceiro lugar, uma igreja precisa de
supervisão. Os apóstolos agiam como bons gestores das coisas da igreja. Sem uma
boa gestão, a igreja, ou qualquer outra instituição, está fadada ao fracasso. Infelizmente,
o problema de muitas igrejas não é propriamente dos membros, mas dos seus
gestores. Nem todo o mundo sabe lidar com o que lhe é confiado, especialmente
se isso envolver dinheiro. Nesse caso, é necessário que haja a maior
transparência possivel. Uma igreja em que os seus líderes não prestam contas e
relatórios do que estão super visionando terá problemas. O problema ocasionado,
por exemplo, por uma falta de prestação de contas logo é seguido pela
insatisfação, críticas e murmuração.
UM BOM EXEMPLO
Em agosto de 2024, eu e minha esposa, Maria
Regina, estivemos na cidade de Eaton, Illinois, Estados Unidos. Ali conhecemos
o Museu de Billy Graham. Naquele espaçoso local, há um farto material,
incluindo videos, audios, sermões, biblias e livros, usados pelo grande
evangelista norte-americano. Ali podemos conhecer os fatos por trás da
história. Confesso que fiquei emocionado com o modo como Deus usou aquele
gigante para impactar o mundo com a pregação da Palavra de Deus. Deve ser
observado, contudo, que Billy Graham so foi o homem que foi porque agiu com
extrema responsabilidade, caráter e ética ministerial. Nesse aspecto, um fato
merece ser compartilhado aqui. No site da Billy Graham Association, podemos
saber mais sobre essa história.
Em 1948, Billy Graham iniciou uma série de
reuniões evan-gelisticas em Modesto, California, juntamente com a sua equipe
ministerial. A reunião de Modesto teve como propósito manter no ministério o
mais alto padrão de moralidade e integridade biblica. O que ali foi decidido serviu
de padrão para pastores, bem como para organizações sem fins lucrativos em
diferentes partes do mundo. Graham detalhou o que o Manifesto de Modesto,
California, tratou:
Certa
tarde, durante as reuniões em Modesto, reuni a equipe para discutir o problema.
Depois, pedi que fossem para seus quartos por uma hora e fizessem uma lista de
todos os problemas que pudessen imaginar que os evangelistas e o evangelismo enfrentavam.
Quando voltaram, as listas eram notavelmente semelhantes e, em pouco tempo,
fizemos uma série de resoluções ou compromissos entre nós que nos guiarian em
nosso trabalho evangelistico futuro. Na realidade, era mais um entendimento
informal entre nos um compromisso compartilhado de fazer tudo o que pudéssemos
para manter o padrão biblico de integridade e pureza absolutas para os
evangelistas. O primeiro ponto em nossa lista combinada era o dinheim. Quase
todos os evangelistas daquela época inclusive nós eram sustentados por ofertas
de amor recolhidas nas reuniões. A tentação de arrancar o máximo de dinheiro
possível de um público, muitas vezes com fortes apelos emocionais, era grande
demais para alguns evan-gelistas. Além disso, havia pouca ou nenhuma responsabilidade
pelas finanças. Era um sistema fácil de ser abusado e levava à acusação de que
os evangelistas estavam nisso apenas pelo dinheiro. Eu recebia um salário da
YFC Jovens para Cristo) e entregava todas as ofertas das reuniões da YFC aos
comités da YFC, mas meus novos esforços independentes em campanhas em toda a
cidade exigiam finanças separadas. Em Modesto, decidimos fazer tudo o que
pudéssemos para evitar abusos financeiros, minimizar a oferta e depender o
máximo possivel do dinheiro arrecadado antecipadamente pelo comité local.
A postura adotada por Graham segue os
principios adotados pela comunidade apostólica em Jerusalém. Em Jerusalém, o
povo demonstrava ser solidário com os menos favorecidos e generosos em ofertar
financeiramente porque viam transparência por parte dos apóstolos na
administração dos bens da coletividade. E. Billy Graham não fez diferente. O
seu ministério contou durante toda a sua vida com milhares de mantenedores
porque estes sabiam que ele usaria. os seus donativos com integridade e
responsabilidade. Graham foi extremamente transparente com os recursos que recebia,
e onde não hả transparência não há confiança.
Isso é um exemplo para todos nós.
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